Investidores apostam que novas ameaças criadas pela inteligência artificial obrigarão empresas e governos a aumentar rapidamente os gastos com proteção digital.
O avanço acelerado da inteligência artificial está provocando uma reação inesperada no mercado de tecnologia: enquanto aumentam as preocupações sobre os riscos de sistemas cada vez mais poderosos, empresas de cibersegurança começam a ser vistas como algumas das possíveis beneficiárias dessa nova fase. Nesta terça-feira, 15 de setembro de 2026, investidores passaram a avaliar que a expansão da IA poderá obrigar companhias e governos a investir muito mais na proteção de redes, dados, aplicações e agentes autônomos.
Esse movimento já apareceu nas bolsas. Segundo a Axios, as ações da CrowdStrike avançaram aproximadamente 14%, enquanto os papéis da Palo Alto Networks registraram valorização próxima de 13%. A mudança ocorreu enquanto parte do mercado reduzia posições em segmentos diretamente ligados à expansão da IA e aumentava apostas em companhias capazes de proteger empresas contra ameaças potencializadas pela própria tecnologia.
O tamanho potencial desse mercado ajuda a explicar o interesse dos investidores. A Gartner estima que os gastos mundiais classificados como AI Cybersecurity alcancem aproximadamente US$ 51,3 bilhões em 2026, praticamente o dobro dos US$ 25,9 bilhões registrados em 2025. Para 2027, a projeção sobe para quase US$ 86 bilhões, mostrando que segurança deverá acompanhar a expansão dos investimentos globais em inteligência artificial.
O crescimento não ocorre apenas porque criminosos podem utilizar IA para aprimorar ataques. Empresas também precisam proteger os próprios sistemas inteligentes que estão colocando em produção. Modelos de linguagem, agentes autônomos e aplicações corporativas introduzem novas superfícies de ataque, incluindo manipulação de prompts, vazamento de informações, abuso de permissões e comprometimento de componentes externos. Assim, a corrida pela IA começa a gerar uma segunda corrida: a construção de uma nova camada de segurança especificamente preparada para sistemas inteligentes.
Por que o avanço da IA está aumentando a demanda por cibersegurança?
A primeira preocupação está no aumento da capacidade tecnológica disponível para atacantes. Ferramentas de inteligência artificial podem acelerar tarefas que antes exigiam mais conhecimento técnico e tempo, permitindo analisar códigos, produzir mensagens de engenharia social mais convincentes e procurar vulnerabilidades em escala. Isso não significa que a IA tenha tornado automaticamente qualquer pessoa capaz de executar ataques sofisticados, mas a redução de determinadas barreiras técnicas aumenta a pressão sobre organizações que precisam defender sistemas cada vez maiores e mais conectados.
Ao mesmo tempo, os próprios defensores estão utilizando IA para encontrar problemas com velocidade muito maior. Em maio, a Palo Alto Networks informou que modelos avançados de inteligência artificial haviam encontrado 75 vulnerabilidades em seus produtos, mais de sete vezes a quantidade normalmente descoberta pela companhia em um mês. A experiência oferece uma demonstração prática da velocidade com que modelos especializados podem analisar software e identificar falhas — capacidade que pode beneficiar equipes de segurança, mas que também gera preocupação sobre o que acontecerá quando ferramentas semelhantes se tornarem amplamente acessíveis a atacantes.
Existe ainda uma segunda categoria de risco: proteger a própria inteligência artificial. À medida que empresas conectam agentes a bancos de dados, sistemas financeiros, ferramentas corporativas e infraestrutura de nuvem, esses agentes passam a possuir permissões capazes de produzir consequências reais. Um sistema comprometido pode não apenas revelar uma resposta incorreta, mas potencialmente acessar informações, executar comandos ou utilizar ferramentas que estejam disponíveis em seu ambiente operacional.
A Gartner prevê que mais da metade dos ataques bem-sucedidos contra agentes de IA até 2029 poderá explorar fragilidades de controle de acesso e técnicas como prompt injection. Por isso, companhias estão começando a procurar produtos específicos para monitorar modelos, controlar como funcionários utilizam IA, criar gateways entre sistemas inteligentes e redes corporativas e identificar comportamentos anormais de agentes autônomos.
Quanto o mercado de cibersegurança ligado à IA pode crescer?
Os números mostram uma expansão rápida. Na projeção mais recente da Gartner para os gastos globais com inteligência artificial, a categoria de AI Cybersecurity passa de US$ 25,9 bilhões em 2025 para US$ 51,347 bilhões em 2026. Para 2027, a estimativa chega a US$ 85,997 bilhões. Isso significa crescimento de aproximadamente 98% em apenas um ano entre 2025 e 2026 e avanço adicional de cerca de 67% no ano seguinte.
É importante diferenciar essa categoria mais ampla de outro mercado acompanhado pela Gartner: o de tecnologias utilizadas especificamente para proteger sistemas de IA. Nesse segmento mais restrito, a consultoria estima gastos de aproximadamente US$ 2,8 bilhões em 2026 e quase US$ 4,8 bilhões em 2027, uma expansão projetada de 68,7%. A diferença ocorre porque “AI Cybersecurity” inclui uma área muito maior de investimentos relacionados à aplicação da inteligência artificial na segurança, enquanto “securing AI” concentra-se nas ferramentas destinadas a proteger modelos, aplicações e agentes de IA.
Entre as tecnologias que devem crescer estão segurança de aplicações de IA, controle de utilização, plataformas de governança e AI gateways, responsáveis por intermediar e controlar interações entre modelos e outros sistemas. A Gartner estima que somente a segurança de aplicações de IA poderá movimentar cerca de US$ 851 milhões em 2027, enquanto ferramentas de controle de uso poderão alcançar US$ 749 milhões. Esses valores ainda são pequenos diante do mercado global de segurança, mas apresentam taxas de crescimento muito superiores às de segmentos tradicionais.
O mercado total de segurança da informação continua muito maior. A Gartner projeta aproximadamente US$ 244 bilhões em gastos globais com segurança da informação em 2026, impulsionados pela necessidade de aumentar a resiliência das organizações e enfrentar novas ameaças. Isso mostra que a inteligência artificial não está substituindo as necessidades tradicionais de cibersegurança. Na prática, ela está adicionando novas categorias de risco sobre uma infraestrutura que já precisava de proteção contra ransomware, invasões, roubo de credenciais e vazamento de dados.
Por que empresas de cibersegurança podem se beneficiar dessa nova corrida tecnológica?
A lógica dos investidores é relativamente simples: quanto mais poderosa e disseminada se torna a inteligência artificial, maior tende a ser a necessidade de protegê-la e de se defender de pessoas que utilizem a mesma tecnologia para atacar. Esse raciocínio ajudou empresas de segurança digital a se destacarem em um momento no qual cresceram as preocupações com os efeitos de modelos avançados. CrowdStrike e Palo Alto Networks estão entre as companhias que passaram a receber atenção justamente por oferecerem tecnologias utilizadas por grandes organizações para detectar ataques e proteger infraestruturas digitais.
O interesse aumentou em meio a um debate mais amplo sobre segurança da IA. Executivos de alguns dos principais laboratórios de inteligência artificial passaram a defender maior cautela diante da evolução dos modelos mais avançados. O debate envolve cenários muito diferentes, desde riscos extremos de longo prazo até problemas imediatos e economicamente mensuráveis, como ataques digitais, falhas operacionais e comprometimento de sistemas corporativos. Para o mercado de cibersegurança, são justamente esses riscos concretos que podem gerar novos contratos e investimentos.
Ao mesmo tempo, o crescimento da IA dentro das próprias empresas cria oportunidades que independem de cenários catastróficos. Organizações estão adotando assistentes, copilotos e agentes capazes de acessar documentos internos, códigos e sistemas corporativos. Cada nova conexão precisa ser monitorada, autenticada e protegida. À medida que agentes assumem mais tarefas, identidades não humanas também passam a gerar uma parcela crescente do tráfego das redes empresariais, exigindo que tecnologias tradicionais de monitoramento sejam adaptadas.
Isso ajuda a explicar por que a cibersegurança aparece como um dos setores potencialmente beneficiados pela expansão da inteligência artificial mesmo em períodos de maior preocupação com a tecnologia. O mercado não está apostando necessariamente que os cenários mais extremos ocorrerão, mas que empresas terão de gastar mais para evitar consequências muito mais comuns: invasões, fraudes, vazamentos, agentes comprometidos e interrupções operacionais. Se as projeções da Gartner se confirmarem, os gastos classificados como cibersegurança relacionada à IA poderão saltar de US$ 25,9 bilhões em 2025 para quase US$ 86 bilhões em apenas dois anos, transformando segurança em uma das frentes de crescimento mais acelerado da nova economia da inteligência artificial.
Fontes:
Axios — AI fears send cybersecurity stocks higher
Gartner — projeção mundial de gastos com IA em 2026 e 2027
Gartner — mercado de proteção específica para sistemas de IA
Axios — IA encontra vulnerabilidades em produtos da Palo Alto Networks
