Conforme menciona a profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, Taiza Tosatt Eleoterio, a autoestima é um dos primeiros aspectos afetados quando alguém convive, por meses ou anos, com humilhações veladas, controle excessivo ou desqualificação constante. Sair de um relacionamento abusivo não apaga essas marcas de imediato: a pessoa carrega, por um tempo, a voz do parceiro anterior repetindo que ela vale pouco, erra sempre ou não é capaz de decidir sozinha sem ajuda externa.
Tendo isso em vista, a reconstrução da autoimagem depois desse tipo de vínculo não segue um roteiro fixo, e sim avança em camadas, à medida que a pessoa recupera espaço para escolhas próprias e para julgamentos que partem dela mesma. Entenda, a seguir, como essa reconstrução acontece na prática.
Por que a autoestima fica tão fragilizada nesse tipo de vínculo?
A repetição é o principal mecanismo de desgaste. Um comentário isolado dificilmente muda a forma como alguém se enxerga, porém críticas constantes, comparações e ameaças veladas moldam, aos poucos, uma narrativa interna distorcida sobre quem a pessoa é. Ela passa a antecipar julgamentos, duvidar das próprias percepções e adiar decisões simples por medo de errar diante de outra pessoa.
Aliás, de acordo com a especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio, esse padrão explica por que a saída do relacionamento não resolve o problema sozinha. O convívio terminou, ainda assim os pensamentos automáticos aprendidos durante anos continuam ativos, e é justamente sobre eles que o trabalho de reconstrução da autoimagem precisa incidir primeiro, antes de qualquer outra mudança externa.
Como a imagem que a pessoa tem de si mesma começa a mudar?
A mudança dificilmente é linear. Nas primeiras semanas, é comum alternar entre momentos de clareza e recaídas de insegurança, sobretudo diante de situações cotidianas que lembram, mesmo que indiretamente, o relacionamento anterior. Esse movimento de ida e volta não indica retrocesso: mostra que a percepção antiga está sendo questionada, e não simplesmente aceita como verdade.
Isto posto, o primeiro sinal concreto de avanço costuma ser pequeno: a pessoa nota que discorda de um pensamento negativo sobre si mesma antes mesmo de agir conforme ele. Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, esse intervalo entre pensamento e reação é onde a nova autoimagem começa a ganhar espaço, ainda que de forma discreta e pouco perceptível para quem observa de fora.
Quais atitudes concretas ajudam a fortalecer a autoestima no dia a dia?
Algumas práticas simples, quando sustentadas ao longo do tempo, ajudam a consolidar essa mudança de percepção sobre si mesma:
- Registrar decisões tomadas de forma independente, ainda que pequenas, para criar um histórico visível de autonomia;
- Buscar conversas com pessoas que validem percepções e sentimentos, em vez de questioná-los constantemente;
- Retomar atividades interrompidas durante o relacionamento, que devolvem contato com interesses próprios;
- Interromper comparações automáticas com a fase anterior, já que o processo não é igual para duas pessoas;
- Procurar acompanhamento profissional quando os pensamentos negativos persistem com intensidade.
Essas ações não substituem o tempo necessário para o amadurecimento emocional; elas funcionam como pontos de apoio concretos nos dias em que a insegurança volta com mais força. Assim sendo, o valor dessas práticas está menos no resultado imediato e mais na repetição, que ensina o corpo e a mente a reconhecer novamente a própria voz como confiável e digna de escuta.
O que muda quando a autoestima deixa de depender da validação alheia?
Quando a autoimagem para de se apoiar na aprovação de outra pessoa, as decisões passam a refletir preferências reais, e não tentativas de evitar conflito, como pontua Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade. Esse deslocamento é gradual, contudo transforma a relação da pessoa com erros e limites: eles deixam de ser motivo de vergonha e passam a ser parte natural de qualquer trajetória de vida.
Uma autoestima que já não pede permissão para existir
Em última análise, esse é o ponto em que a reconstrução deixa de ser reação ao passado e se torna, de fato, um projeto voltado para o presente. A comparação constante com quem a pessoa era antes do relacionamento perde força, e o critério passa a ser simplesmente quem ela está se tornando agora.
Nesse estágio, a autoestima já não depende de provar nada a ninguém, incluindo a própria história anterior. Ela se sustenta em pequenas provas cotidianas de que a pessoa consegue escolher, discordar e mudar de ideia sem que isso a torne menos confiável aos próprios olhos.
