Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, identifica a tireoide como uma glândula pequena, mas com influência sobre praticamente todos os sistemas do organismo. Os distúrbios tireoidianos se tornam progressivamente mais comuns com o avanço da idade, e a apresentação clínica no idoso frequentemente difere de forma significativa do quadro observado em adultos jovens. O rastreamento de disfunções tireoidianas é parte essencial da avaliação geriátrica, pois sintomas que passariam despercebidos ou seriam atribuídos ao envelhecimento normal podem, na verdade, ter origem em uma tireoide que não está funcionando adequadamente. Reconhecer essa possibilidade pode transformar a qualidade de vida do idoso.
Como os distúrbios da tireoide se manifestam de forma diferente no idoso?
O hipotireoidismo, condição em que a tireoide produz hormônios em quantidade insuficiente, é a disfunção tireoidiana mais comum na terceira idade, afetando especialmente mulheres acima dos 60 anos. Em adultos jovens, o hipotireoidismo costuma se manifestar com sintomas clássicos como cansaço intenso, ganho de peso, intolerância ao frio, pele seca e queda de cabelo. No idoso, esses mesmos sintomas frequentemente estão ausentes ou são tão sutis que se confundem com o envelhecimento normal, enquanto outras manifestações menos típicas, como lentidão cognitiva, depressão, constipação intestinal e bradicardia, assumem maior proeminência.
O hipertireoidismo, situação oposta em que há excesso de hormônios tireoidianos, também tem apresentação atípica no idoso. Em vez da taquicardia, agitação e perda de peso que caracterizam o quadro em jovens, o idoso hipertireoideu pode apresentar fibrilação atrial, fraqueza muscular, apatia e insuficiência cardíaca como manifestações predominantes, um perfil que os especialistas chamam de hipertireoidismo apático e que pode passar completamente despercebido sem rastreamento laboratorial adequado. Conforme ressalta o doutor Yuri Silva Portela, essas apresentações atípicas tornam o exame de TSH uma ferramenta diagnóstica de valor inestimável na avaliação geriátrica.
Quais são os impactos das disfunções tireoidianas sobre a saúde do idoso?
O hipotireoidismo não tratado no idoso contribui para o agravamento de condições já presentes, como dislipidemia, hipertensão e insuficiência cardíaca, além de acelerar o declínio cognitivo e aumentar o risco de depressão. A lentidão metabólica provocada pela deficiência de hormônios tireoidianos afeta a disposição, a capacidade de realizar atividades físicas e a qualidade do sono, comprometendo múltiplas dimensões do bem-estar do idoso de forma simultânea. O tratamento com levotiroxina, quando indicado e corretamente dosado, pode reverter boa parte desses efeitos com impacto expressivo sobre a qualidade de vida.

O hipertireoidismo, por sua vez, representa um risco cardiovascular significativo no idoso, com associação bem estabelecida com fibrilação atrial, que, por sua vez, aumenta o risco de AVC isquêmico. A perda de massa óssea acelerada pelo excesso de hormônios tireoidianos também é uma preocupação relevante, especialmente em mulheres idosas já predispostas à osteoporose. O doutor Yuri Silva Portela sublinha que o tratamento precoce do hipertireoidismo no idoso é uma medida de proteção cardiovascular e óssea que não pode ser postergada.
Como é feito o acompanhamento tireoidiano no idoso?
O rastreamento de disfunções tireoidianas no idoso é feito por meio da dosagem do TSH, exame simples, de baixo custo e amplamente disponível na rede pública de saúde. Em idosos assintomáticos, a periodicidade do rastreamento varia conforme as diretrizes adotadas e o perfil de risco do paciente, mas a maioria dos protocolos geriátricos recomenda a avaliação em toda consulta de rotina. Quando alterações são identificadas, a interpretação dos resultados e a decisão sobre tratamento precisam considerar as particularidades do envelhecimento, pois os valores de referência laboratoriais podem não se aplicar de forma uniforme à população idosa.
O tratamento das disfunções tireoidianas no idoso exige cautela e individualização, especialmente no caso do hipotireoidismo em pacientes com doença cardíaca estabelecida, nos quais a reposição hormonal deve ser iniciada em doses muito baixas e aumentada de forma gradual para evitar sobrecarga cardiovascular. O doutor Yuri Silva Portela e a equipe do Humaniza Sertão incorporam a avaliação tireoidiana ao protocolo de cuidado geriátrico oferecido nas comunidades do sertão cearense, garantindo que uma condição tão tratável não continue sendo ignorada por falta de acesso a diagnóstico especializado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
